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Tom Daley: Gay e ouro olímpico - por que isso importa?

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Tom Daley - campeão olímpico irradiando gay pride   Por Sergio Viula Por que o discurso de Tom Daley colocando-se como homem gay no pódio importa e faz diferença? Aproveitando para responder uma pergunta idiota feita num comentário de uma amiga que compartilhou uma postagem sobre o discurso do Daley. Assista.

Meio século hoje!



Por Sergio Viula



Em um universo com 13,7 bilhões de anos (13.700.000.000 de anos!!!), o que seriam 50 anos? Seriam um sopro, uma fagulha, um estalo? Sim, ou menos que isso. Mas, quando o que está em questão é a vida do homo sapiens, 50 anos significam muito. 

Meio século de vida, especialmente para o brasileiro cercado de violência, como é o nosso caso, viver 18.250 dias é um tremendo feito! Isso se torna ainda mais notável quando você é um homem gay e brasileiro. Digo isso, porque com um LGBT morto a cada 16 horas no país, permanecer vivo como gay assumido e ativista dos direitos LGBT no seu dia-a-dia está longe de ser pouca coisa. 

Mais do que isso, realizar-se a despeito de toda a homofobia sofrida na infância e na adolescência, e de todo o massacre vivido no meio da religião fundamentalista que seguia (primeiro, o catolicismo sufocante e depois o evangelicalismo castrador), e depois de passar por uma turbulenta saída do armário por causa de um divórcio, seguido da incompreensão de muitos familiares (não todos, felizmente), viver 50 anos constitui-se num feito ainda mais notável! Lamentavelmente, muitas pessoas morrem ainda jovens porque não aguentam a pressão.  

Só em 2018, 100 lindas pessoas LGBT - a maioria jovem - cometeram o derradeiro ato do suicídio. Esses casos totalizaram 23% das mortes de LGBT no ano passado, segundo o relatório produzido pelo meu amigo Eduardo Michels e publicado no site Homofobia Mata

Apesar do elevado número registrado, não há dúvida de que as mortes são muito mais numerosas. Contudo, enquanto o trabalho de coleta e análise de dados for feito por uma pessoa só, em verdadeiro esforço hercúleo, não tomaremos conhecimento da maioria dos casos. Houvesse uma equipe de cinco pessoas, por exemplo, esses casos talvez fossem quintuplicados nas planilhas da pesquisa. Mas, o meu ponto aqui é: Sobrevivi para rir e para chorar. 

Rio com alegria e triunfo por tudo o que superei e pelo que conquistei na vida, apesar de viver muito apertado financeiramente. Minha vida é muito simples, mas posso viver assim pelos próximos 40 anos sem grandes reclamações. Isso porque não sou um ambicioso inconformado. Muita gente pira se tiver que pegar ônibus. Eu piro se não puder levantar da cama. Por outro lado, choro por aqueles que ainda não conseguiram se livrar das teias da ignorância, do medo e da culpa produzidos por séculos de repressão social alimentada pelo fanatismo religioso, principalmente pelos três monoteísmos, que só agora e lentamente começam a se abrir para a diversidade sexual. Choro também por todos aqueles que foram violentamente destruídos por simplesmente serem diferentes do que alguns esperavam, apesar de NINGUÉM ter o menor direito de ditar o affectio maritalis ou modus vivendi de ninguém - nem mesmo quem gera e nutre. 

Em bom português: ninguém pode dizer como deve ser sua afeição conjugal ou seu modo de viver. O único limite para a liberdade individual é a própria liberdade - dos outros. Não ferindo direitos equivalentes, toda liberdade é lícita.

Nestes cinquenta anos, consegui algumas singelas, mas preciosas realizações. Tive o privilégio de ter pais que me incentivaram a estudar, mesmo tendo, eles mesmos, pouco estudo. Estudei em colégios públicos a vida toda (e só para deixar claro, nenhum federal, infelizmente). Meu ensino fundamental foi em escola municipal e meu ensino médio foi em colégio estadual. No fundamental, uma professora se destacou - a única que demonstrou empatia por mim como menino gay que sofria bullying e que ainda se paralisava diante da mera possibilidade de seus pais imaginarem que ele desejava um namorado, não uma namorada. Pobre criança. Se eu pudesse dar um conselho àquele menino agora, seria o seguinte: Mande todo mundo à merda e seja você mesmo. ^^ 

Voltando à professora... Dona Ana Maria ensinava ciências no tempo em que eu fazia a quinta série (atual sexto ano). 

Outra professora que se destacou foi Dona Regina, apesar de nunca ter dito uma palavra sequer sobre diversidade sexual, mas foi ela a parteira do meu desejo por aprender inglês - língua que eu domino e ensino hoje em dia. Ainda posso me lembrar das duas músicas que ela apresentou à turma em duas aulas diferentes dessa mesma quinta série - Ebony and Ivory (Paul McCartney e Steve Wonder), que fala sobre racismo e conclama à harmonia entre pessoas de cor preta e branca, e You've Got a Friend (James Taylor), que fala de um amigo que está lá para você a qualquer momento, haja o que houver, e que era uma gigantesca demanda afetiva minha em meio ao isolamento em que eu vivia na escola por causa do preconceito homofóbico. Sim, eu fui um garoto efeminado!!!! E, coincidência ou não, adoro homens efeminados. Adoro o feminino no masculino!!!!

No ensino médio, fiz um amigo muito especial - Charles. Menino negro, morador da Zona Norte do Rio. Estudávamos no Colégio Estadual Clóvis Monteiro. Nunca tivemos qualquer interesse sexual um pelo outro, vale destacar. Charles é heterossexual. Eu era homossexual, mas não me assumia ainda. Já estava enfiado numa igreja evangélica e vivia falando do evangelho para ele. Ele gostava. Acabou se convertendo também. Felizmente, nunca foi fanático como eu era naquela época. Charles se casou com Paula e teve filhos muito fofos. Éramos chamados Cosme e Damião por outros colegas por causa da cumplicidade, mas poderíamos ser chamados de "ébano e marfim vivendo em perfeita harmonia" como as teclas do piano do James Taylor (canção citada acima). Mesmo depois que eu me desconverti e me assumi - duas coisas que não caminham necessariamente juntas, pois há gays crentes de todas as religiões e gays ateus -, Charles continuou meu amigo. Já não nos vemos tanto, mas sempre que nos vemos é uma alegria. Ele faz aniversário um dia depois de mim, ou seja, amanhã (09/05). Parabéns, amigão!

Aos 19 anos, eu já trabalhava num setor estratégico para a Cia. Brasileira de Petróleo Ipiranga. Caminhava para posições maiores na empresa, mas por causa do fanatismo religioso e por acreditar que tivesse uma missão a cumprir no campo da evangelização, deixei o emprego e me juntei à Operação Mobilização, uma organização paraeclesiástica que recrutava jovens para trabalharem como missionários VOLUNTÁRIOS no Brasil e em várias partes do mundo. Eu já havia me casado quando fui. Passamos apenas um ano com a organização, porque, quando voltamos, eu já me encontrava a meio caminho de ser pai. Larissa nasceria poucos meses depois, quando eu ainda tinha 23 anos. Isaac, meu segundo filho, nasceu quando eu tinha 25. Sou pai desses dois lindos, que nunca, jamais, ou em tempo algum, me discriminaram por um só segundo!!! E cada um deles teve sua oportunidade de conversar francamente comigo sobre o que significa ser um homem gay e feliz depois de tudo o que eu vivi no cárcere do armário. Cada um deles tinha 11 anos no momento de suas respectivas conversas comigo a esse respeito. São muito diferentes um do outro em termos de seus gostos e personalidades, mas têm em comum aquele delicioso e incondicional amor, acompanhado de muito orgulho, dedicado a mim sem restrições e que vale mais do que tudo o que se possa conquistar na vida. 

Importante: Não alimente a ideia de que você precisa ser pai ou mãe para ser feliz. Isso é uma fabricação totalmente descolada da realidade de muita gente. Ser pai ou mãe tem muito pouco a ver com sapatinhos de lã. Mas, se você for pai ou mãe, seja por "acidente" ou por decisão planejada, mantenha-se absolutamente sincero, justo e amoroso para com seu filho ou sua filha. Esteja preparado para tudo - se é que isso é possível. Muitas vezes, a gente só aprende depois, quando já é tarde demais. Não repita o que fizeram de ruim com você. Não seja estúpido! Crie seu filho ou sua filha para ser ético(a) e emancipado(a).

Passei bastante tempo da minha vida estudando ao mesmo tempo em que trabalhava. Minha mais recente realização foi o mestrado em linguística pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, concluído em 2016, com dissertação apresentada em janeiro de 2017. Sim, o calendário da UERJ ignora que janeiro deveria ser sempre mês de férias. Isso porque professores e outros funcionários travam verdadeiras batalhas por direitos que deveriam ser reconhecidos sem discussão alguma por parte do governo do Estado. Digo com todas as letras: Eles/Elas merecem TODO nosso apoio.

Quanto ao trabalho, fora o tempo em que atuei no ambiente corporativo (a Ipiranga não foi a única), tenho passado anos e anos da minha vida em sala de aula. Adoro o que eu faço. Muita gente me pergunta se trabalho na UERJ por causa da minha formação lá e do amor que dedico àquela instituição. Sempre digo que não, mas que seria um prazer se pudesse. Na verdade, nunca tentei. Curto muito minhas interações com meus alunos no aprendizado da língua inglesa nos ambientes em que trabalho hoje.

Graças ao domínio da língua inglesa, já tive oportunidade de estar em lugares tão diversos como Cingapura, Alemanha, Inglaterra e Holanda. Também já estive na Argentina, apesar de não falar espanhol. Os argentinos são espertos e compreendem bem o nosso português. De todos esses países, o que eu mais gostei foi a Holanda, porém nenhum deles foi mais marcante para a minha saída do armário do que Cingapura - até porque todos os outros foram visitados depois que eu já havia me assumido. 

Foi em Cingapura que eu cheguei à conclusão de que toda aquela luta para ser outra "coisa" (heterossexual em vez de homossexual) era uma grande perda de tempo e um grande equívoco. A última pá de cal sobre o cadáver dessa farsa, na qual eu acreditava tão sinceramente, foi colocada por um filipino, membro da Marinha Mercante, com quem me relacionei na última noite que passei naquela próspera península asiática. Isso foi no final do ano 2000. Um ano antes da virada do milênio! ^^ Eu já tinha 31 anos de idade.

Em 2001, alguns meses depois desse encontro, decidi pedir o divórcio, e dizendo por quê. A pedido da minha então esposa e cedendo à pressão de colegas pastores, ainda fiquei mais dois anos junto com ela, mas no ano de 2003, saí definitivamente do armário. Já me encontrava no 34º ano de vida. Ela seguiu em frente e casou-se de novo. Fico feliz que tenha ouvido meu conselho, que era o seguinte: Você é jovem, bonita, inteligente. Não fique presa ao passado. Conheça outros caras e se case com um com quem você possa compartilhar a vida. É exatamente isso que eu farei daqui para frente.

Em 2004, debutei na imprensa em grande estilo (kkkk). Foi na Revista Época, a matéria saiu na revista impressa naquele momento, mas continua online ainda hoje. De lá para cá, perdi as contas das vezes em que dei entrevista ou que publicaram a minha história de emancipação, especialmente minha renúncia ao famigerado movimento de "cura gay". Orgulho-me de saber que existem publicações em português, inglês, espanhol, italiano, russo, japonês, etc. Que o mundo saiba e não se esqueça: 

NÃO EXISTE CURA PARA O QUE NÃO É DOENÇA, MAS EXISTE CURA PARA A HOMOFOBIA.

Quando saí do armário, uma das pessoas que mais me compreenderam e me amaram acima de tudo foi minha avó Maria Jerônima, viúva muito jovem. Meu avô morreu com pouco mais que a minha idade hoje. Ele era João e ela era Maria, porque as portuguesas do milênio passado eram geralmente Maria "alguma coisa". Jerônima, porque ela nasceu no dia de São Jerônimo. Mãe de meu pai, ela faleceu aos 89 anos. Em termos de apoio e compreensão, posso dizer que ela foi minha melhor amiga em todos os momentos. Se minha mãe fez mais do que ela? Sim, muito! Mas quanto à minha orientação sexual, minha mãe foi muito mais crítica e resistente. Em compensação, faz tempo agora que mamãe se tornou uma pessoa muito mais resolvida e inclusiva, apesar de ainda lutar interiormente com algumas imposturas da religião irrefletidamente repetidas e cridas porque pensadas como portadoras de alguma verdade. 

Minha mãe se chama Maria da Conceição, filha de Maria Elisa Gomes (falecida) - ambas portuguesas, da Ilha da Madeira, assim como a mãe de meu pai. Minha mãe chegou ao Brasil aos 15 anos. Sua vida não foi nada fácil, especialmente na infância e na adolescência. Só melhorou quando sua tia Maria Antônia a acolheu como uma segunda filha. Isa, a filha legítima da tia Maria Antônia, e única prima de minha mãe no Brasil, tornou-se a irmã que ela nunca teve. Minha mãe estava finalmente a salvo. E a salvo estava meu futuro nascimento, pois foi a partir daí que ela conheceu meu pai, com quem é casada há 51 anos.

Meu pai sempre foi cabeça-dura com relação à diversidade sexual. Criado num ambiente que colocava o macho acima de tudo, ele reproduziu todas as idiossincrasias dos machões de seu tempo. Felizmente, mudou muito depois de quatro anos de gelo absoluto - tempo em que deliberadamente fiquei sem falar com meus pais por causa da obstinação homofóbica deles na época. Pediram perdão, demonstraram mudança, abriram-se para a realidade, e hoje em dia, os dois agem de modo igualmente acolhedor - ele e minha mãe. Apesar desse lado obscuro do machismo e da homofobia, João Manoel, meu velho, sempre foi fiel à família e sempre foi honesto em meio a um ambiente profissional onde poderia ter se corrompido facilmente e feito muito dinheiro ilícito. Nunca aceitou qualquer proposta corruptora. Herdamos dele e de minha mãe a honestidade que nos caracteriza. Digo herdamos, pois tenho duas irmãs mais novas - Katia e Simone.

Em 2010, lancei um livro a fim de registrar algumas dessas memórias e encorajar pessoas que vivem situações semelhantes às que eu eu vivi a saírem do armário. Escrevi Em busca de mim mesmo. O lançamento foi em livro impresso, mas atualmente o livro só pode ser encontrado em e-book no Amazon. Quem desejar conhecer as reações dos leitores, os de verdade, não os haters, poderá encontrá-las aqui: 
https://www.xn--foradoarmrio-kbb.com/p/reacoes-de-alguns-leitores-de-em-busca.html

Aos 47 anos, conheci uma das pessoas mais fantásticas que já tive o privilégio de encontrar na vida - Andre Dias. Nosso encontro se deu de modo absolutamente inusitado. Você pode ler mais sobre esse momento aqui: Quando um anúncio da Trivago muda a sua vida. Em fevereiro de 2019, fizemos três anos juntos. Posso dizer que ninguém jamais me fez tão bem quanto ele. E fico feliz em ouvi-lo dizer a mesma coisa. As diferenças geracionais, longe de nos atrapalharem, nos enriquecem a ambos, seja no amor ou na administração da vida e de seus problemas. Compartilhamos tudo na vida - inclusive as contas do dia-a-dia. ^^ E por isso, já fizemos mais do que nossos salários sozinhos nos permitiriam. Esperamos poder fazer muito mais ainda nos próximos anos.

Para não tornar esse texto absolutamente impossível de ser lido nos intervalos que meus leitores têm para acessar a Internet, vou parar por aqui, mas eu poderia enumerar muitas outras coisas e citar dúzias de outras pessoas que tiveram imensa importância em minha vida. Finalizo o texto escrito, mas continuo escrevendo minha própria história em cada minuto que vivo, e nunca escondi a pretensão de viver pelo menos 90 anos repletos de saúde em todos os sentidos e com muita disposição para desfrutar o que a vida me ofereça sem sofrer demais pelo que ela me negue. 



Foto tirada de vídeo em:


Um beijo colorido para todos os amigos, amigas e amigues que curtem esse espaço e que celebram a vida em toda a sua diversidade.



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