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Bebê a bordo: Diário de um avô colorido 👴🏳️‍🌈

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Por Sergio Viula 1º DIA: 07/03/2021 Às vesperas do Dia Internacional da Mulher, minha filha me deu uma notícia que merece celebração e exige cuidados ao mesmo tempo.  Acordei por volta das nove horas da manhã com mensagens entrando, uma após a outra, no meu Instagram. Antes mesmo de ir ao banheiro fazer a higiene matutina, abri o comunicador e li o seguinte: "Você vai ser avô, mas ainda é segredo. Só conta para os meus pais e para o Isaac." A razão do segredo é que o teste para gravidez que ela havia feito era aqueles que se compram em farmácias. Ela queria contar para outras pessoas só depois do exame de sangue, que dá um resulado mais seguro. Claro que eu fiquei feliz e preocupado ao mesmo tempo. Daí, a frase que abriu esse diário lá em cima. É bom saber que Larissa e Vitor estão felizes com a perspectiva da maternidade e da paternidade. Por outro lado, ter um filho não é tão simples quanto muita gente imagina e nem como alguns pais e algumas mães tendem a falar sobre esse

Corpus Christi: Vestra frui corporum (Aproveitai vossos corpos)

Por Sergio Viula





O feriado é de Corpus Christi, mas muita gente nem sabe do que se trata o feriado. De fato, Corpus Christi é simplesmente a celebração da hóstia - um biscoitinho de trigo que supostamente se tranforma ao longo do rito da missa celebrada por um sacerdote em comunhão (acordo, obediência e submissão) ao Papa da Igreja Católica Apóstolica Romana.

Reza o catecismo que a presença de Cristo passa a estar em todas as partes do biscoito de trigo assim que este é consagrado pelo sacerdote. Também diz o catecismo, logo em seguida, que a adoração ao pão e vinho eucarísticos é adoração ao próprio Cristo. 

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Catecismo oficial da Igreja Católica, sua segunda parte (a celebração do mistério cristão), segunda seção (os sete sacramentos da Igreja): 

1377. A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura enquanto as espécies eucarísticas subsistirem. Cristo está presente todo em cada uma das espécies e todo em cada uma das suas partes, de maneira que a fracção do pão não divide Cristo (210).

1378. O culto da Eucaristia. Na liturgia da Missa, nós exprimimos a nossa fé na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, entre outras maneiras, ajoelhando ou inclinando-nos profundamente em sinal de adoração do Senhor. «A Igreja Católica sempre prestou e continua a prestar este culto de adoração que é devido ao sacramento da Eucaristia, não só durante a missa, mas também fora da sua celebração: conservando com o maior cuidado as hóstias consagradas, apresentando-as aos fiéis para que solenemente as venerem, e levando-as em procissão» (211).

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Se você não sabia, agora sabe por que as procissões de Corpus Christi levam a hóstia diante do povo enquanto este canta louvores à Eucaristia (pão e vinho = carne e sangue de Cristo) ao longo do caminho.

Mas não escrevo esse post para catequizar ou questionar o catecismo apenas por esporte. Não mesmo. O que eu desejo fazer é uma crítica de cunho muito mais relevante.

Eu me pergunto como a Igreja Católica, principalmente, e suas outras irmãs (Ortodoxas, Protestantes, etc.), a reboque, podem celebrar tão apaixonadamente um corpo abstrato, representado por um biscoito magicamente modificado pelo sacerdote e negar corpos visíveis a olho nu, esses mesmos que se colocam ou adorariam se colocar no mundo de modos melhor sintonizados suas percepções mais honestas de si mesmos? Como querer impor textos escritos por sacerdotes ignorantes sobre a maior parte das coisas que sabemos e fazemos hoje só porque esses modos de ser e de fazer não condizem com seu obtuso modo de ver as coisas? 

Como pode o clero e seus repetidores afirmar a transformação de um biscoito de trigo e um gole de vinho em carne e sangue de Cristo, enquanto desrespeitam o direito de cada corpo que anda, pensa, respira, ama, goza e padece de ser o que desejar ou o que simplesmente souber ser. 

Em tempos (felizmente) idos, a Igreja Católica podia afirmar a transubstanciação sem qualquer constrangimento, apesar de ninguém sentir gosto de carne ou sangue na boca ao tomar os elementos da eucaristia, exceto por alguns excêntricos com algum nível de neurose mais agudo, como os chamaos místicos. Era fácil afirmar a transubstanciação e escapar do escrutínio, uma vez que não havia microscópios e estudos sobre tecido celular. E muito menos ainda sobre cromossomos e sua organização no que hoje denominamos DNA. 

Passou a ser constrangedor para os crentes na mística eucarística afirmar que o pão se torna verdadeiramente carne e o vinho verdadeiramente sangue de Cristo. Para evitar orelhas em pé e olhares céticos, as construções frásicas foram modificadas no catecismo, mas sem qualquer retratação oficial. E se alguém pensa que a Igreja cedeu de fato, basta ver qual será o destino do frei ou freira que disser que o pão e o vinho são apenas símbolos do sacrifício de Cristo: o fiel passa a ser considerado um herege calvinista ou luterano num passe de mágica.

Enquanto afirma um corpo que não existe, a Igreja teima em negar outros que se impõem. Igrejas, de um modo geral, não se relacionam bem com os corpos humanos, sejam eles vistos sob os conhecimentos construídos a partir da biologia isoladamente - o que é insuficiente, diga-se de passagem - ou sob o foco da plasticidade que permite que nossos corpos se (re)constituam em meio às (e a partir das) experiências bio-psicossociais vivencidas.

Inegavelmente, todo corpo é construído. Todo corpo tem uma base genética que pode ser vista como ponto de partida, mas nunca como ponto de chegada necessário ou como destino irrevogável. Não morremos os mesmos que nascemos. Ninguém! Nossos corpos se modificam. São condicionados, treinados, submetidos a todo o tipo de restrição construída discursivamente e por meio de dispositivos que já operam sobre nós desde período pré-natal sem qualquer possibilidade de consentimento ou objeção da nossa parte.

Nossos corpos são fantásticos! Muita gente se ressente de não ter um corpo que se encaixe num determinado padrão. Ressalto que os padrões mudam de acordo com o tempo e o local. Culturas variam e assim também variam os padrões ditados para os corpos que circulam nos ambientes dominados por uma determinada cultura. Isso afeta as noções de forma, peso, cor, altura, largura, idade (real ou aparente) dos corpos. A indumentária e o modo como nossos corpos se comportam em cada ambiente e ocasião também variam. Quase tudo ao nosso redor cria e reforça artificilmente noções de gênero, que, pela massificação das regras, passam a parecer naturais, mas que foram estabelecidas através de várias relações de força cristalizando hierarquias que, por sua vez, perpetuam ou incrementam todo tipo de injustiça e violência - das mais simbólicas às mais cruentas.

Hoje mesmo, estava ouvindo a Lorelay Fox falar sobre os posicionamentos transfóbicos da escritora J.K. Rowling, criadora do cativante universo de Harry Potter. É impressionante que alguém com o nível cultural e com a capacidade criativa de J.K. Rowling venha a se prestar à desprezível função de perpetuar preconceitos baseados em noções equivocadas sobre identidade gênero e de tudo o que decorre de visões biologizantes, especialmente quando se trata de pessoas transgêneras, ou seja, aquelas que tiveram seu gênero atribuído desde o nascimento meramente com base em sua genitália, mas que transicionaram do gênero atribuído por terceiros para o gênero com o qual elas, individual e pessoalmente, se identificam.

Para fins de esclarecimento, pensemos no que significa ser uma pessoa cisgênera e no que significa ser uma pessoa transgênera. Basicamente falando, podemos definir cisgênero e transgênero assim:

Uma pessoa cisgênera é aquela cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento.

Uma pessoa transgênera é aquela cuja identidade de gênero difere do que tipicamente se atribui ao seu sexo de nascimento.

E qual é a consequência do reconhecimento dessas subjetividades e dos diversos corpos que delas decorrem? Múltiplas! E muitas delas belíssimas! Existem coisas não tão glamurosas, especialmente quando pensamos nas relações de opressão estelecidas a partir da equivocada noção de que a cisgeneridade é a norma. Refiro-me a regras e padrões ditados com base em noções equivocadas de gênero e de natureza geralmente ditados por interpretações paupérrimas sobre a experiência dessa multiplicidade de corpos e subjetividades que chamamos de "O Ser Humano", como se este fosse apenas uma coisa e nada mais.

Por isso, quero lembrar em letras garrafais lidas em voz retumbante que...

 

Há mulheres com vagina e há mulheres com pênis!

Há homens com pênis e há homens com vagina!

Há mulheres que menstruam e que deixarão de menstruar um dia (algumas há muito tempo)!

Há mulheres que nunca menstruaram e que jamais menstruarão!

Há homens que nunca menstruaram e que nunca menstruarão!

Há homens que menstruam e que deixarão de menstruar um dia (alguns há muito tempo)!

Há mulheres que produziram seios espontaneamente.

Há mulheres que removeram seus seios e há mulheres que construíram seios.

Há homens que jamais produziram seios espontaneamente.

Há homens que removeram seios espontaneamente produzidos.

Há mulheres cujos seios podem ou não amamentar. 

Há mulheres cujos seios nunca poderão amamentar.

Há homens sem seios que, portanto, nunca amamentarão.

Há homens cujos seios podem ou não amamentar. 

O útero não define quem é mulher: Histerectomia não basta para se desconstruir uma mulher.

A próstata não define quem é homem: Prostatectomia não basta para se desconstruir um  homem.

Há mulheres que podem parir e mulheres que não podem.

Há mulheres que podem engravidar outras mulheres e até homens.

Há homens que podem fecundar e homens que não.

Há homens que podem engravidar de outros homens ou até de outras mulheres.

Há casais formados por uma mulher cis e outra trans, um homem cis e outro trans, duas mulheres cis, dois homens cis, duas mulheres trans, dois homens trans e até com mais de dois parceiros e/ou parceiras.

Eu poderia seguir com essa fantástica lista, mas penso que esses dados sejam suficientes para fazer muita gente pensar. Mas só pensa quem quer pensar. Nada poderá ajudar a pensar aquele(a) que se recusa a fazê-lo seja lá em nome do que ou de quem. 


Ah, e se a mulher trans ou o homens trans não for "a sua praia"? 

Não esquenta a cabeça. Tem praia pra todo mundo. Procure a sua e respeite a dos outros. ;)



Você consegue ver quem é a mulher e quem é o homem aqui,
mas que diferença faz em qual dos dois corpos estão o(s) pênis e/ou a(s) vagina(s)?


Sexo não determina e não pode mesmo determinar o gênero de ninugém. Gênero é uma construção psicossocial, não biológica, mesmo quando leva em consideração o corpo e suas possíveis transformações. Gênero pode ser construído, desconstruído e até eliminado da experiência humana como o conhecemos hoje. Podemos viver num mundo sem qualquer noção de gênero. Isso é absolutamente possível, ainda que nos pareça muito difícil devido aos constrangimentos discursivos aos quais também fomos submetidos desde antes do nosso nascimento. 

E se alguém ainda quiser dar aquela cartada mais do que ultrapassada de que não haveria procriação sem sexo (sexo entendido como ato sexual ou a combinação de espermatozóide e óvulo), quero lembrar aos digníssimos dinossauros que nem para procriação o ato sexual, é mais necessário. E já está à porta o dia em que nem o binômio espermatozóide/óvulo será necessário para gerar novos indivíduos. Quem viver, verá! 

Concluindo, um corpo não TEM QUE ser coisa alguma, mas ele PODE ser qualquer coisa! Sua plasticidade é impressionante. E se há uma coisa que faz bem ao corpo, seja ele qual for, é a autorrealização. Para além da boa alimentação, do equilíbrio entre movimento e descanso, do amor próprio e do amor recíproco em relações com um ou mais corpos, nossos corpos são, ao mesmo tempo, fonte e meio de satisfação própria e de satifação para outro(s) corpo(s) que se relacione(m) harmoniosamente com ele.

Por isso, a frase no título desse post: "Vestra frui corporum!" 

Em latim, essa frase significa "Aproveitai vossos corpos". Porque, se você não tomar cuidado, ele será explorado por terceiros em relações de poder as mais diversas (família, igreja, escola, trabalho, etc.), mas não usufruido por você mesmo e por aquele(a)/aqueles(as) com os(as) quais você estabeleça deliciosas relações de reciprocidade, não necessaria ou exclusivamente sexuais.

Vestra frui corporum!



Comentários

  1. Texto profundo e sensível. Tocou-me muito, especialmente no momento em que eu estou vivendo.

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    1. Obrigado, Letícia. Que prazer receber um comentário seu aqui e ler que vc curtiu o texto. Um beijão. Você é uma pessoa admirável!

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