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Tom Daley: Gay e ouro olímpico - por que isso importa?

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Tom Daley - campeão olímpico irradiando gay pride   Por Sergio Viula Por que o discurso de Tom Daley colocando-se como homem gay no pódio importa e faz diferença? Aproveitando para responder uma pergunta idiota feita num comentário de uma amiga que compartilhou uma postagem sobre o discurso do Daley. Assista.

Nós e a maldição da mansão Bly

A maldição da mansão Bly
The haunting of Bly manor

 


Por Sergio Viula


Andre e eu decidimos assistir A maldição da mansão Bly pela segunda vez. A primeira foi no ano passado. A série continua disponível no Netflix no momento em que escrevo. 

Apesar de parecer ser apenas mais uma série sobre assombrações fantasmagóricas numa linda casa antiga, trata-se, na verdade, de um lindo romance.

Quem gosta de levar uns sustos vai se deliciar com a série, mas o que mais me toca no enredo todo é a metáfora da perda do rosto dos espíritos desencarnados. O desvanecimento da face representa o esquecimento no qual tudo e todos eventualmente mergulharão. Em outras palavras, o tempo apaga tudo, inclusive a lembrança dos espíritos mais obstinados. E não me refiro apenas à lembrança desses mortos entre os que permanecem vivos, mas as memórias acumuladas por esses próprios mortos durante suas vidas na terra. 

Na série, os vivos acumulam memórias só para perdê-las totalmente após a morte, mesmo repetindo os mesmos movimentos aos quais ficaram apegados. É a perda total da memória - um Alzheimer pós-morte irreparável, inevitável e permanente que transforma todas as histórias, sejam elas repletas de alegrias ou de dores, em um gigantesco nada.

Ao contrário do que muitos poderiam afoitamente pensar, a perspectiva de que tudo acabará sendo nadificado irremediavelmente não torna a vida uma bobagem (nem no filme nem na realidade), mas um privilégio único, uma urgência sem a menor necessidade de justificativa. O amor é a única coisa que lhe dá sentido, enquanto dele se tem consciência.

Pessoalmente, não tenho a menor razão para acreditar em vida após a morte ou em espíritos desencarnados ligados a objetos, sejam eles uma residência, um baú de roupas e joias, um lago ou coisas assim. Não tenho razão alguma para crer que minha memória sobreviverá por um segundo sequer à minha morte. Na realidade, não há motivo para se pensar que a mente seja algo desvinculado do cérebro e que tenha vida própria. Pelo contrário, é muito mais provável que ela seja mera projeção produzida pela atividade cerebral e que, cessando a atividade cerebral definitivamente, a mente deixa de ser projetada, assim como o som de um sino deixa de reverberar quando o sino para de vibrar.

Contudo, as cenas lindamente construídas e a narrativa envolvente de A maldição da mansão Bly estimularam muitos sentimentos e pensamentos que eu já nutria por conta própria, mas que acabaram sendo agitados como quando misturamos o açúcar ao café usando uma colher. Houve momentos em que lágrimas me vieram aos olhos e um aperto enorme dominou minha garganta. O motivo? Pensar que eu pudesse perder as pessoas que eu amo de repente. E sempre podemos. Porém, o agravamento da pandemia que nos acomete há mais de um ano esfrega essa possibilidade em nossas caras mascaradas (ou não) diariamente. E não é só isso. A pandemia potencializa as probabilidades de perdermos nossos amados exponencialmente. 



 

Assim como a morta que despertava do fundo do lago e que andava pela casa, arrastando quem se colocasse em seu caminho, o Coronavírus pode arrastar para a morte as pessoas que eu mais amo, bastando que elas deem o “azar” de cruzar com ele no caminho. 

Assistindo a série, eu pensava intensamente em Andre, nos meus pais, nos meus filhos, nas mães do Andre e nos irmãos e sobrinhos dele. Pensava em amigos que eu prezo muito. Quem poderia deter a morta do lago em sua peregrinação noturna até os antigos aposentos da filha dela? E quem poderá deter o vírus que provoca a Covid-19?

Bem, sobre a mulher do lago, não vou dar ‘spoilers’, mas sobre a Covid-19, sabemos bem como ficar fora de seu caminho: 

1. Distanciamento social ou completo isolamento;

2. máscaras usadas corretamente;

3. mãos lavadas com água e sabão frequentemente;

4. alimentos e outros artigos higienizados depois das compras;

5. álcool gel quando não for possível lavar as mãos. 

E os meios para eliminarmos de vez essa ameaça também já estão disponíveis. Temos várias várias VACINAS com eficácia e segurança comprovadas.

A maioria das quase 300 mil mortes já registradas exclusivamente por Covid-19 até 22 de março de 2021, data dessa postagem, poderia ter sido evitada. Mais que isso: Todas as milhares de vidas que ainda serão perdidas poderiam ser poupadas. Bastava que o governo brasileiro tivesse tomado as medidas de contenção da epidemia de forma orquestrada em nível nacional desde o começo. O governo federal não apenas deixou de fazer isso, mas ainda tentou atrapalhar quem quisesse fazê-lo. Ainda mais injustificável foi a rejeição por parte do governo Bolsonaro de ofertas de vacinas. 

Em fevereiro deste ano, o Instituto Butantã informou que o Ministério da Saúde rejeitou a oferta de 160 milhões de doses da CoronaVac. Não foi só dessa vez. No ano passado, o governo de Jair Bolsonaro rejeitou outros 70 milhões de doses da vacina produzida pelo laboratório Pfeizer. Só por esses dois atos irresponsáveis e criminosos, esse governo já poderia ser considerado homicida, mas há quem o classifique como genocida, porque ele está provocando a morte de etnias inteiras e de populações seculares que ocupam várias regiões remotas desse país. 

A tragédia está avançando em velocidade tão vertiginosa que até São Paulo – uma das maiores cidades do mundo – está ficando sem estoque de oxigênio para uso hospitalar. E tudo porque a indústria não consegue dar conta do aumento súbito na procura por esse “produto”. 

Mas isso também não pode ser considerado supresa alguma. Há pouquíssimo tempo, em Manaus, houve dia em que 28 pessoas morreram simplesmente porque o oxigênio engarrafado acabou no hospital. Quantas mais ainda morrerão por esse mesmo motivo - agora em diversas cidades do país?

Alguns governos e prefeituras já estão se organizando para decretar 'feriado prolongado' nessa páscoa - um eufemismo para ‘lockdown’. Isso é bom, pois um dos maiores responsáveis pela propagação do vírus é provavelmente o transporte público. Outro grande responsável é provavelmente a escola. Muitas teimam em manter aulas presenciais, mesmo com professores adoencendo a olhos nus. O feriadão pode estancar isso por um tempo. Porém, se não houver bloqueio nas entradas e saídas das cidades que estiverem utilizando essa estratégia, daremos com os burros n’água novamente. 

No Rio de Janeiro, por exemplo, se não fecharem a ponte Rio-Niterói e o acesso à Região dos Lagos pelas estradas, poderá haver êxodo e aglomeração. Muita gente acha que ainda pode fazer turismo e veraneio. As empresas de viagens continuam fazendo propaganda como se viajar não oferecesse o menor risco.

Se a prefeitura não fechar as praias na cidade do Rio, mantendo rígida fiscalização policial, haverá gente estúpida se aglomerando nas areias e no calçadão. É preciso ação firme e rigorosa contra todos os que desrespeitarem as determinações de proteção sanitária. Tolerância zero! 

Por entender que a dor se encerra com a morte, esta não me parece assustadora em si mesma. De modo algum... Pelo contrário, a morte pode ser a melhor coisa que pode acontecer a alguém em sofrimento intenso e sem possibilidade de estancamento. Porém, deixar de viver as alegrias que a vida pode nos oferecer por causa de uma morte precoce e totalmente evitável é de uma estupidez medonha. Perder quem eu amo e viver sofrendo a ausência dessas pessoas pelo resto da minha vida é uma perspectiva insuportável. 

Só o que me resta é fazer tudo o que estiver ao meu alcance para evitar esse vírus. E, infelizmente, graças à incompetência, ignorância e crueldade desse governo genocida, a melhor de todas as ferramentas não estará ao meu alcance ou ao alcance do meu amor, nem dos meus filhos amados - e isso por muito tempo. Meus pais, por terem mais de 70 anos, estão com as agulhas já apontadas para seus braços, mas ainda muito falta muito para considerar os dois realmente imunizados. Meu pai tomou a primeira dose há quase duas semanas e minha mãe somente hoje. Ainda falta as segundas doses deles. Antes disso, nada é garantido.

Seria consolador que algumas pessoas que tão estupidamente apoiaram esse genocida e continuam ainda nutrindo simpatia por ele apenas reconhecessem que terem eleito essa desgraça foi a pior coisa que elas fizeram na vida, ainda tenham feito ginástica olímpica mentalmente para imaginarem milhões de autojustificativas que sustentassem o desprezível ato de confirmar o maldito 17 nas urnas. Mas, esperar por isso talvez signifique perder tempo – e o tempo pode ser, sob muitos aspectos, o nosso maior inimigo. 




Continuarei isolado e torcendo para que as pessoas que não podem se isolar tanto quanto eu consigam se desviar do vírus como a pequena Flora e seu irmão Miles se desviavam da morta do lago a todo custo.



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