Adeus, Papa Francisco: uma despedida com esperança e preocupação

Hoje, o mundo se despede de um líder religioso que, com todas as suas contradições, marcou uma virada simbólica no modo como a Igreja Católica trata as pessoas LGBTQIA+. O Papa Francisco faleceu nesta manhã, deixando para trás um legado que merece ser reconhecido — especialmente por quem, como nós, viveu (e muitas vezes sobreviveu) aos discursos de ódio de líderes religiosos.
Francisco não mudou a doutrina da Igreja. Continuou a chamar a homossexualidade de “pecado”. Mas também foi o primeiro Papa a dizer, com o peso do Vaticano nas costas, que “ser homossexual não é crime”, e que as leis que criminalizam nossa existência são “injustas” e precisam ser abolidas.
Foi ele quem disse:
"Deus ama todos os seus filhos como eles são."
E também:
“Quem sou eu para julgar?” — frase que virou manchete no mundo todo em 2013, e ecoou como um sopro de humanidade numa instituição tantas vezes marcada pela exclusão.
Foi durante seu pontificado que vimos o Papa declarar que pessoas LGBTQIA+ têm direito a uma família, e que o Estado deve garantir uniões civis que protejam direitos como saúde, herança e dignidade. Ele nunca abençoou nossos casamentos — ao contrário, reafirmou que a Igreja não pode “abençoar o pecado” —, mas condenou com firmeza a marginalização, a violência e a criminalização de pessoas como nós.
Francisco também alertou os próprios bispos:
“Eles precisam passar por um processo de conversão. Todos devem agir com ternura.”
E agora… quem virá?
A morte do Papa Francisco não é apenas o fim de um pontificado. Para muitos LGBTQIA+ católicos ou ex-católicos, é a perda de uma figura que, mesmo sem romper com a ortodoxia, ofereceu uma fresta de escuta, uma migalha de acolhimento, um gesto simbólico de respeito. Não é suficiente, mas é bem diferente das torturas inquisitoriais que fizeram vítimas "sodomitas" até mesmo aqui no Brasil
📚 Casos documentados de perseguição por sodomia no Brasil
🔹 Moleque escravo (nome não registrado) – 1678, Sergipe del Rey
Um jovem escravizado foi açoitado até a morte após ser acusado de manter relações sodomíticas com o Capitão Pedro Gomes. O caso foi denunciado ao Santo Ofício por um frei e está registrado nos arquivos da Inquisição de Lisboa.
🔹 André Lessa – 1593, Pernambuco
Comerciante acusado de sodomia, foi preso durante a primeira visitação da Inquisição a Salvador. Seu caso é um dos primeiros registros de perseguição a homossexuais no Brasil colonial.
🔹 Daniel Pereira – século XVII, Recife
Escravizado acusado de sodomia, foi condenado pelo Tribunal do Santo Ofício em Lisboa. Seu processo revela as severas punições aplicadas a pessoas negras e escravizadas sob tais acusações.
🔹 Frei Lucas de Sousa – século XVII, Belém do Pará
Clérigo acusado de sodomia, foi preso e enviado aos cárceres da Inquisição em Portugal. Seu caso destaca a perseguição a membros do clero envolvidos em relações homoeróticas.
O luto é real. Mas a preocupação também.
Quem herdar a mitra agora? Será alguém disposto a continuar — ou ao menos não desfazer — esse movimento de escuta e inclusão? Ou voltaremos a ouvir apenas o silêncio dos dogmas e o som mórbido de vozes homofóbicas e transfóbicas ecoando da catédra e dos concílios?
Francisco, com todos os seus limites, deixou uma mensagem clara: a dignidade humana vem antes do julgamento moral. E isso, vindo de dentro do Vaticano, foi e é revolucionário.
Hoje, deixamos um agradecimento sem genuflexões, mas continuamos atentos, pois o que virá depois, dependerá de muitos fatores. Mas, a verdade é que Francisco deixou uma marca que ninguém mais poderá apagar. A questão que fica é se vão aprofundar ou apenas deixar de lado o legado dele nesse sentido.
💬 Para não esquercer:
Tempos de despedida são também tempo de reafirmações. Nenhum ser humano em sã consciência deve ceder um milímetro sequer à ideia absurda e perversa de que sua orientação sexual ou identidade de gênero devam ser curadas, convertidas ou transformadas — seja por métodos ilusoriamente chamados de “espirituais”, seja por práticas falsamente revestidas de “ciência”.
Ódio e preconceito disfarçados de teologia ou de psicologia não resistem à menor análise crítica. Além disso, essa é uma questão de de respeito básico à dignidade humana, de reafirmação dos direitos à auto-expressão e à autonomia individual. A sexualidade é parte integrante da personalidade, identidade e modus operandi de todos os indivíduos e deve ser vivenciada entre os limites da liberdade individual e do respeito à dignade alheia.
Tudo o que a Igreja Católica, todas as demais religiões, os Estados e as sociedades precisam fazer é nos deixar em paz. Gays, lésbicas, bissexuais, pessoas trans, queer e todas as identidades da comunidade LGBTQIA+ têm o direito inegociável de viver como bem entenderem — sem discriminação alguma, nem mesmo aquela que vem disfarçada sob o manto da suposta piedade religiosa.
Não aceitaremos menos do que isso. E seguiremos atentos, firmes e fora do armário.
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