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Mãe de Paulo Gustavo faz 74 anos e fala com Ana Maria Braga

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17 de setembro de 2021 Por Sergio Viula Interrompendo aqui a nossa série sobre religião e diversidade sexual, gostaria de incentivar você a assistir essa entrevista maravilhosa feita por Ana Maria Braga com Dona Déa Lúcia, a mãe do querido Paulo Gustavo, falecido há quatro meses. Hoje, é aniversário dela - 74 anos - e Dona Déa deu um show de amor e de sabedoria durante toda a entrevista. Você vai se emocionar, aprender, crescer e se tornar melhor como ser humano se aplicar o que ela falou aqui sobre uma das coisas mais importantes para o indivíduo - a família, especialmente quando se trata de filho ou filha LGBT+. Não deixe de ver. É logo no começo do programa. Depois que a Ana Maria faz a abertura com suas mensagens típicas de encorajamento, ela já passa para a abertura da entrevista com cenas de Paulo Gustavo trabalhando como Dona Hermínia. Imperdível! Assista aqui:  https://globoplay.globo.com/v/9867337/programa/?s=0s Parabéns pelo seu aniversário e pela mulher fantástica que você é

Muçulmanos LGBTQ - Junaid Jahangir



Transcrito e comentado por Sergio Viula
de uma palestra feita por Junaid Jahangir
para o TEDx Talks




"Existem 1,6 bilhão de muçulmanos em todo o mundo - cada um deles com uma conexão singular com o divino, que chamamos de Alá. Por extensão, existem 1,6 bilhão de 'islãs'. Temos sunitas e xiitas (...), temos muçulmanos LGBTQ e temos muçulmanos progressistas. E, sim, também temos aqueles muçulmanos veganos. O Islã não é um monólito. Cada muçulmano pratica o islã de sua própria maneira singular e especial. E, portanto, assim como eles falam por si mesmos, eu certamente falo por mim mesmo."

"Por mais de uma década, meu co-autor palestino, o Dr. Hussein Abdul Latif, um endocrinologista pediátrico no Alabama e em diversos lugares, e eu temos trabalhado incansavelmente para estabelecer um discurso de renovação a respeito da lei islâmica e das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Hussein e eu temos argumentado que o Islã não apenas afirma a legitimidade da necessidade do ser humano por intimidade, afeto e companheirismo, mas vai além para oferecer um contrato legal para a expressão sexual de muçulmanos LGBTQ."

Junaid Jahangir - o autor dessas declarações para o TEDx Talks no dia 1 de maio deste ano - destaca que judeus e cristãos têm suas congregações inclusivas funcionando ao lado de outras mais conservadoras e excludentes na mesma cidade em que ele vive (Edmonton, Canadá), mas que não existe uma congregação islâmica sequer que inclua muçulmanos LGBTQ em toda a cidade de Edmonton.

"Jovens muçulmanos lutando para reconciliar sua espiritualidade com sua sexualidade são informados que ser gay e experimentar esses desejos é uma coisa, mas que agir com base neles se constitui num pecado grave. Mais ainda,  ir adiante e escrever sobre seus sentimentos para justificar uniões entre pessoas do mesmo sexo no islã equivale à apostasia (deixar a fé islâmica), o que sob interpretações clássicas do islã merece a morte por punição."

"O que podem tais jovens fazer contra tais palavras, exceto viver vidas duplas, já que eles demonstram uma fé durante as orações de sexta-feira e outra bem diferente nas noites de sexta-feira, quando buscam encontros sexuais secreto? Ser gay para eles fica, então, reduzido não a quem eles são, mas ao que eles fazem. Aqueles que buscam, que ousam tentar, levar uma vida honesta, recebem a opção de se casarem ou a prescrição vitalícia do celibato, mas o celibato vitalício não é um valor islâmico. Trata-se de uma nova dificuldade. Não é piedade. E como disse (...) Rubaiyat of Hafiz Shirazi, 'nem mesmo sete mil anos de alegria podem justificar sete dias de repressão'."

"Jovens muçulmanos quando abordam seus líderes clérigos, seus ímãs, ouvem uma frase descontextualizada, uma das variações do verso 7:81 (...), que diz 'Acercando-vos licenciosamente dos homens, em vez das mulheres. Realmente, sois um povo transgressor.' - o que se refere inteiramente ao específico ato de relação anal. O que pode essa juventude fazer, senão se esconder envergonhada e culpada por causa do que é apresentado a ela como a própria palavra de Deus?"

"A comunidade formada pela principal corrente ortodoxa muçulmana não demonstra qualquer disposição a considerar uma visão renovada sobre a lei islâmica e as uniões entre muçulmanos do mesmo sexo."

"Por outro lado, você tem os ativistas sociais que adotam uma atitude tão cáustica, tão tóxica, e uma linguagem tão estrangeira, tão estranha à linguagem do islã, que eles perdem qualquer relevância para com muçulmanos da corrente predominante. Isso forma o status quo que ocupam os muçulmanos LGBTQ no Islã. É extremamente necessário que tenhamos conversas honestas. Todos temos que revisitar as fontes primitivas de todo o conhecimento islâmico, o Corão, mas depois de nos limparmos de nossos preconceitos e de nossa repugnância, exatamente como nos lavamos durante as abluções antes de orarmos ou de tocarmos o livro sagrado."

"Então, considerem aquele verso 5:51: 'Ó fiéis, não tomeis por confidentes os judeus nem os cristãos; que sejam confidentes entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por confidentes, certamente será um deles; e Deus não encaminha os iníquos.' 

Algumas traduções usam "melhores amigos" [no lugar de confidentes]. Mas, a despeito dessas palavras expressas, os muçulmanos basicamente dizem 'não, espere um minuto. Você tem que conversar sobre a nuance, sobre a sutileza, as diferenças nas traduções e, acima de tudo, contexto.  Na verdade, se não pudéssemos comer os alimentos dos judeus e dos cristãos e realizar casamentos interfés com eles em vez de mantermos uma injunção absurda estabelecida por um contexto político específico e conveniente a um determinado tempo, isso seria absolutamente ridículo. Então, por que será que a mesma nuance, a mesma sutileza, a mesma ênfase na tradução ou ênfase num contexto similar são ignoradas quando se trata do verso 7:81?  

'Acercando-vos licenciosamente dos homens, em vez das mulheres. Realmente, sois um povo transgressor.'

"Então, se pretendemos entender o Corão pelo próprio Corão, então considere o contexto. Verso 29:29: 'Vós vos aproximais dos homens, assaltais as estradas e, em vossos concílios (...)', que fala sobre atos maus em assembleias públicas e roubo nas estradas que nos informa sobre a conduta do povo de Ló. Por essa razão, eis o verso 15:70, que fala sobre a falta de hospitalidade como característica da conduta do povo de Ló, do povo de Sodoma e Gomorra: 'Disseram-lhe: Não te havíamos advertido para não hospedares estranhos?' O Corão mesmo é muito claro ao descrever como o povo de Ló acorreu à sua casa e exigiu que ele entregasse seus hóspedes. De que maneira esse agressivo ataque sexual seria análogo, de qualquer forma ou maneira, à legítima necessidade humana de intimidade, afeto e companheirismo no tocante a muçulmanos LGBTQ?  Não existe absolutamente qualquer conexão. Não existe absolutamente qualquer analogia aqui. Mas, nós teremos que manter a mesma rigorosa abordagem para outros textos no islã também, que incluem os ditos do profesta e os ditos dos companheiros do profeta, os ditos do seguidores dos companheiros dos profetas, os ditos dos juristas e dos exegetas, e de todos os eruditos que vieram depois deles até os tempos contemporâneos. Teremos que descortinar a beleza do Islã que tem estado enterrada sob montes e montes de manuais jurídicos modelados pelo conhecimento médico e pelos costumes econômicos dos tempos dos escritos dos juristas. É uma tarefa hercúlea, mas nós podemos realizá-la, e temos que realizá-la. Vidas estão em jogo."

"Apenas algumas semanas atrás, eu tomei conhecimento de um jovem muçulmano que buscou refúgio junto a um amigo meu que está enfrentando tensões extremas no relacionamento com sua própria família. Conheço um jovem que se converteu ao cristianismo numa das igrejas locais aqui em Edmonton porque essa era a única maneira que ele encontrou para abordar o trauma infligido sobre ele por sua própria família. A mesma família que devia nutri-lo e protegê-lo. Conheço jovens que fogem de uma cidade canadense para outra - de Toronto para Edmonton, de Edmonton para Calgary, de Calgary para Vancouver, tentando escapar do controle e abuso dos pais, exatamente como eu sei de pais muçulmanos que estão enfrentando extremo estresse porque não conseguem lidar com a realidade de um jovem muçulmano assumidamente LGBTQ por um lado e os costumes proibitivos de suas respectivas comunidades étnicas por outro lado."

"Nenhum pai ou mãe muçulmano, nenhum jovem muçulmano deveria experimentar tal dose desnecessária e inútil de culpa e de vergonha. Eles merecem algo melhor. Como partes interessadas nas instituições e comunidades muçulmanas e como líderes, não estamos coagidos ao silenciamento. Nós temos que nos levantar ostensiva e orgulhosamente contra a provocação, contra a agressão e muçulmanos nascidos de novo e de zelotes convertidos, para os quais a religião é um exercício de tortura contra os outros e que preenchem o vácuo em suas vidas vazias com uma prática muito rígida e intransigente de islã. Suas reformas cosméticas ao rejeitarem retoricamente a violência homofóbica e pregarem a 'tolerância' numa estrutura secular e legal são insuficientes para abordar as preocupações de jovens e fiéis muçulmanos LGBTQ, tanto garotos como garotas. Eles merecem mais. Eles precisam ser reafirmados em seus próprios grupos étnicos e comunidades religiosas."

"Felizmente, tal islã se encontra aqui. Hussein e eu temos oferecido bolsas de estudo sobre a lei islâmica e uniões entre pessoas do mesmo sexo, e trata-se de um trabalho forte, muito forte. E é com base nesse trabalho que eu uso essa augusta plataforma para convocar uma ampla gama de organizações em Edmonton, para conclamar a reflexiva e pensadora juventude muçulmana, e para conclamar o governo de Alberta a nos ajudar a despertar os participantes das instituições muçulmanas a abandonarem seu congelante silêncio, a colocarem fim à sua intransigência e a nos encontrarem na interseção entre fé e sexualidade."

"De minha parte, tenho tentado por mais de uma década. Continuo tentando, tentando, e tentando. Tenho escrito cartas. Tenho convidado participantes das instituições muçulmanas a se juntarem a mim em diálogos e oficinas em várias igrejas unidas, mas sem sucesso. Antes mesmo do ataque a tiros contra a boate gay em Orlando, eu convidei líderes muçulmanos várias vezes através do comitê de polícia de Edmonton para se juntarem a nós e publicarem um comunicado conjunto contra a islamofobia e contra a homofobia, mas sem êxito. Cinco meses atrás, eu repeti o mesmo exercício com uma organização muçulmana local, mas continuo aguardando uma resposta. Eu repeti a mesma carta, assinada por ninguém menos que Michael Fair [renomado político de Alberta, Canadá] e toda uma constelação de líderes LGBTQ veteranos. Eu enviei essa carta logo depois do início de fevereiro sem qualquer resposta ainda. Mas, eu sou forte. Como o mestre Yoda diria, 'Forte eu sou com a Força.' Muito forte."

"E até que a comunidade muçulmana mais ampla chegue a reconhecer que não existe absolutamente qualquer analogia entre o agressivo ataque sexual do povo de Ló e as legítimas preocupações humanas por intimidade, afeto e companheirismo por parte de todos os nossos irmãos e irmãs muçulmanos, filhos e filhas, eu continuarei a repetir e repetir que Alá cria o que quer que ele deseje, e que Alá nos ama a todos, cada um de nós em particular. "




Para acessar os artigos do Professor Junaid Jahangir 
sobre islã e homossexualidade, acesse: 
(em inglês)



BRUNEI REVOGA PENA DE MORTE CONTRA HOMOSSEXUAIS

No momento em que traduzo e redijo a transcrição acima, chega-me a notícia de que o sultão de Brunei revogou a aplicação da pena de morte contra gays naquele sultanato muçulmano. 

A mudança de ideia por parte do sultão veio menos de um mês depois que tal atrocidade foi anunciada. O sultan Hassanal Bolkiah anunciou sua decisão depois de um boicote internacional e da ameaça de sanções contra o país.

A homossexualidade, infelizmente, ainda será ilegal em Brunei, assim como era antes da aprovação do novo (e macabro) código penal, mas a pena de morte não será aplicada. Menos mal, mas isso está longe de ser o suficiente. 

De acordo com a agência Reuters, numa rara quebra de protocolo,  o gabinete do Sultão publicou uma tradução oficial na língua inglesa do discurso realizado pelo Sultão sobre esse assunto - o que indica que ele pretende alcançar uma audiência internacional.


ARÁBIA SAUDITA CONTINUA VIOLANDO DIREITOS HUMANOS E EXECUTANDO GAYS

Enquanto isso, todavia, a Arábia Saudita continua praticando inomináveis violações contra os direitos humanos de homens gays e muito provavelmente de outros membros da comunidade LGBTQ+. Você pode acessar mais informações sobre isso e também assistir um belo filme sobre muçulmanos LGBTQ+ nesse mesmo link: 
https://www.xn--foradoarmrio-kbb.com/2019/04/lgbt-o-odio-saudita-versus-jihad-do-amor.html


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